sábado, 10 de janeiro de 2015

Resenha: Um Teto Todo Seu




Olá! Como vocês estão neste novo ano que começou? Lendo muito?
Eu confesso para vocês que estou um pouco devagar nas leituras, mas depois de uma semana, finalmente terminei meu primeiro livro de 2015: Um Teto Todo Seu, da talentosíssima e única Virgínia Woolf.

É difícil falar sobre esse livro. É difícil, sinceramente, resenhar qualquer coisa que tenha sido escrita por essa mulher. Ela é complexa e fascinante ao mesmo tempo.

Esta obra surgiu de duas palestras que Virgínia fez em uma faculdade inglesa exclusiva para mulheres em 1928. O tema era As Mulheres e a Ficção, mas claro que nossa escritora brilhante foi muito além disso. O livro, apesar de abranger um assunto mais técnico, também tem seu toque de ficção, pois Virgínia cria uma personagem para impor suas ideias e argumentos ao longo do texto: Mary Seton. 

Primeiramente, Virgínia já começa com este ponto ao lado citado. Não há arte, não há talento, se não houver dinheiro, uma casa e um espaço adequado para poder desenvolver seu trabalho. E, sendo mulher, isto é um problema. As mulheres, ainda agora, em 2015, ainda sofrem todo o tipo de preconceito por querer os mesmos direitos que os homens, então imaginem o quanto isto era ainda pior em 1928. As mulheres eram ensinadas a cozinhar, a cuidar do lar, do marido e dos filhos. Não podiam sair por aí estudando, não podiam sair por aí ganhando seu próprio dinheiro.

"Se ao menos a senhora Seton, sua mãe e sua avó tivessem aprendido a grande arte de ganhar dinheiro e tivessem destinado o seu dinheiro, como fizeram os pais e os avôs delas, a criar bolsas de pesquisas ou palestras e prêmios e bolsas de estudos específicas para o uso de seu próprio sexo, nós poderíamos ter jantado decentemente uma ave e uma garrafa de vinho aqui em cima; poderíamos esperar, com confiança desmedida, viver uma vida agradável e honrada sob a proteção de uma dessas profissões prodigamente rentáveis. Nós poderíamos estar explorando ou escrevendo; divagando sobre os lugares mais veneráveis da terra. [...] Além disso, é igualmente inútil se perguntar o que teria acontecido se a senhora Seton, sua mãe e sua avó tivessem acumulado grande riqueza e houvessem depositado nas fundações de uma faculdade e uma biblioteca, porque, em primeiro lugar, ganhar dinheiro era impossível para elas, e, em segundo, se isso tivesse sido possível, a lei lhes negaria o direito de possuir o dinheiro ganho."
P. 26



Apenas no século XIX foram aprovados no Reino Unido os Married Women's Property Acts, lei que dava às mulheres casadas o direito de serem as proprietárias legais do dinheiro que ganhavam e também de controlarem seus bens.

"Por que os homens bebem vinho e as mulheres, água? Por que um sexo é tão próspero e o outro, tão pobre?"
P. 28



Há também no livro a incrível indagação, até mesmo metáfora, eu diria, de Virgínia: e se Shakespeare tivesse uma irmã igualmente, ou até mais, talentosa do que ele? Esta mulher teria as mesmas oportunidades do que seu irmão?


É óbvio que não. Além da falta de dinheiro, como já foi aqui colocado, as mulheres também careciam de poder estudar, de poder trabalhar; de serem independentes, e o principal: careciam de oportunidades. Não havia muitas opções para elas além do casamento.

É esse o ponto que Virgínia quer ressaltar em sua palestra: por mais talentosa que uma mulher pudesse ser, ela não escreveria algo tão bom quanto um homem, pois os homens sempre tiveram mais estudo e, consequentemente, mais intelecto; mais liberdade, mais sonhos, mais vontades. A literatura só conhecia um padrão: o patriarcal. E é difícil quebrar padrões.

"Por isso a enorme importância para o patriarcado de ter de conquistar, ter de governar, de achar que um grande número de pessoas, metade da raça humana, na verdade, é por natureza, inferior. Deve ser realmente uma das principais fontes de seu poder."
P. 36

Já ouvi muita gente dizendo que não lê os livros de Virgínia Woolf por ela ser muito "feministinha". Já digo para vocês, leitores, que se ser feminista é lutar por direitos iguais, assim como Virgínia lutou pelo direito ao voto das mulheres,  eu também sou. E me admiro de alguma mulher não o ser. Querer as mesmas oportunidades não é crime. Ou é?

Por favor, leiam Virgínia. Se não lerem esse por acharem por demais técnico, leiam seus livros de ficção. São magníficos. Nos fazem ver o mundo de outra forma. Afinal, não é pra isso que a literatura serve?

No livro, Virgínia critica a literatura feita na época. Não por ser escrita por homens, mas por estes escritores descreverem uma mulher que não era a imagem refletida da realidade. Ela tinha uma importância enorme nos livros de ficção. Então por que os homens não davam essa mesma importância às mulheres reais?

"De fato, se a mulher não existisse a não ser na ficção escrita  por homens, era de se imaginar que ela fosse uma pessoa da maior importância; muito variada; heroica e cruel, esplêndida e sórdida; infinitamente bela e horrenda ao extremo; tão grandiosa como um homem, para alguns até mais grandiosa. Mas isso é a mulher na ficção. Na vida real, ela era trancada, espancada e jogada de um lado para outro."
 P. 43 

É isso: com muita inteligência, Virgínia não faz apenas um retrato da ficção e das mulheres ao longo do tempo, mas sim da sociedade, acima de tudo.

Woolf também fala, muito sutilmente, sobre a homossexualidade feminina, ou a falta dela, na literatura. "Às vezes as mulheres gostam realmente de mulheres." 

Ao decorrer da obra, ela cita diversos escritores e escritoras. Jane Austen, Emily Brontë, Flaubert, Shakespeare e por aí vai. Se você tem familiaridade com esses nomes, terá uma leitura mais fácil, pois não ficará boiando em algumas partes. Porém, dá para entender perfeitamente mesmo que não tenham lido nada dos autores referidos.

No meio de tantos livros sobre literatura, mas com tão poucos retratando a mulher nela inserida, este é uma ótima opção para quem quer saber mais, ou para quem se interessa.



"Além disso, acentuando todas essas dificuldades e tornando-as mais difíceis de suportar, há a indiferença notória do mundo. Ele não pede às pessoas que escrevam poemas, romances e histórias; ele não precisa disso. Não se importa se Flaubert encontra a palavra certa ou se Carlyle verifica com cuidado este ou aquele fato. Naturalmente, não vai pagar por aquilo que não quer."

P. 51


6 comentários:

  1. Oi, tudo bem?
    Eu ainda não li nada dessa autora, mas com a sua resenha fiquei muito curiosa, o tema As mulheres e a ficção eu achei muito interessante, também gostei da parte que você ressalta que ainda em 2015 sofremos preconceito por querer os mesmos direitos que os homens. Enfim, gostei muito da sua resenha, uma ótima dica de leitura *-*

    Beijos :*
    Larissa - http://srtabookaholic.blogspot.com

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    1. Oi, Larissa!
      Que bom que ficou interessada! O livro é bem legal, mas pra quem não curte nada muito teórico, a Virgínia tem ótimos de ficção também ótimos.
      E nós já conseguimos muito, mas falta muito também! :/
      Obrigada ♥
      Beijos.

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  2. Eu não sou muito chegada a livros desse gênero, mas eu realmente adorei a sua resenha e me despertou algumas curiosidades.. Ele parecer ser muito interessante, vou procurar nas livrarias e dar uma folheada .

    http://1001julietas.blogspot.com.br/

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    1. A maioria das pessoas não gosta, mas ela tem ótimos livros de ficção também!
      Procure mesmo, de repente agrada... Haha
      Beijos!

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  3. Sua resenha ficou ótima! Nunca li nada da Virgínia Woolf mas fiquei bastante curiosa sobre esta obra! :)

    Venho também avisar que indiquei seu blog para receber o selo de "Blog Fofo"! Espero que goste! :D
    http://bookspoison.blogspot.com.br/2015/01/novo-selo-blog-fofo.html

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    1. Oi, Ursula! Que bom que gostou! *-*
      Adorei o selinho muito obrugada, mesmo!

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